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Santiago a pé

Em Julho decidi que em Setembro iria a pé a Santiago de Compostela.

São cerca de 240 quilómetros que separam quem somos quando começamos, de quem nos tornamos quando chegamos ao fim.

É importante alguma preparação antes de ir, e noções como o que levar (ou não) na mochila, ou os melhores lugares para comer e dormir, podem poupar tempo e energia ao longo desta viagem.

Comecei no Porto. São dez dias a caminhar uma média de 25 quilómetros por dia. Sugiro começar cedo, para fugir ao calor e dar tempo para aproveitar o resto do dia, seja para descansar ou para explorar as cidades. Convém ir gerindo o dia, de forma a garantir facilmente um lugar para dormir no final de cada etapa.

É na praça da Sé que a aventura começa seguindo as setas amarelas que guiam o caminho até Santiago. A paisagem é marcada por um registo mais industrial neste primeiro dia, mas a chegada ao Mosteiro de Vairão, em Vila do Conde, consegue arrancar uma lágrima, mesmo aos menos crentes. É aqui que recomendo passar a primeira noite. A simpatia e a calma com que somos recebidos fazem toda a diferença na dureza os próximos dias.

No segundo dia, segui com as primeiras luzes da manhã em direcção a Barcelos. Esta cidade culturalmente tão rica, recebe-nos de braços abertos na sua ponte sobre o rio Cávado.

Ao terceiro dia as dores já não passam despercebidas e o peso da mochila vai aumentando hora após hora. O calor aperta, mas a vontade de descobrir o que me espera grita sempre mais alto.

Próxima etapa: Ponte de Lima. Este foi dos dias mais longos e exigentes. Mas também dos mais bonitos, com paisagens bucólicas de vinhas a perder de vista. Existem várias opções de lugares para dormir, desde hostels particulares ao albergue público, que foi onde dormi.

No dia seguinte caminhei na companhia de uma chuva miudinha, que se foi intensificando ao longo do dia, até Rubiães, em Paredes de Coura. É das etapas mais pequenas e mais árduas, marcada pela exigente subida da Serra da Labruja.

O quarto dia foi de despedida de Portugal. Segui num misto de muita chuva e muito sol até Valença do Minho: vale a pena almoçar por aqui e dar uma volta pelas variadas opções de comércio que oferece.

E assim, passando a ponte, estamos em Espanha, na cidade de Tui, das cidades mais bonitas que conheci nestes dias. Depois de uma rua íngreme e de muito cansaço, deparamo-nos com uma cidade medieval, característica pelas igrejas e pelas praças repletas de boas opções, quer para comer, quer para passar a noite.

Os quatro dias seguintes foram de muita resiliência: todo o corpo dói, a alma chora, mas quer mais. E ao mesmo tempo não quer, já chega. Está calor e a mochila pesa, assim como chove muito e escorregas e tens frio. Mas como desistir? O caminho és tu. Não desistes de ti.

E é tudo tão lindo. Rendi-me à Galiza, e zonas como Pontevedra e Caldas de Reis merecem cada momento de contemplação.

Importa ir caminhando ao ritmo de cada um, sem pressões nem relógios demasiado exigentes. Importa cada silêncio, cada pensamento, e cada sorriso partilhado com quem caminha na mesma estrada.

A chegada a Santiago de Compostela é dos momentos mais inexplicáveis de todo o caminho, um misto de sensações: êxtase, cansaço, emoção, reflexão. Uma peregrinação, seja aonde for, deixa sempre marcas em quem a faz.

Foram muitos quilómetros de caminho em alcatrão, em terra batida, em pedras, em florestas encantadas, mas acima de tudo, ao interior de mim mesma.

Artigo by Nádia Silvestre

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