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Rios

Nasci à beira de um rio. Cresci à beira do mesmo rio. Vivo hoje à beira de outro rio depois de ter passado muito tempo na minha vida à beira de ou à procura de água. Como se precisasse de água para estar inteira ou para me considerar em casa. A presença de água na minha vivência diária é necessária. Quase como se o meu espírito possuísse guelras e a única forma de ele respirar fundo, recuperar o fôlego, fosse através dessa água reveladora de uma ligação primordial e recuperadora de bem-estar, equilíbrio existencial.

Na vida há muitas coisas maravilhosas, mas ter o privilégio, porque o sinto realmente como privilégio, de abrir a janela e ouvir água do rio Ceira a cantar enquanto passa por cima dos seixos rodados é algo de inebriante. Uma bênção!

O Rio Ceira é um dos afluentes principais do Mondego, rio da minha infância. Neste primeiro rio eu mergulhei, aprendi a nadar, ajudei a lavar roupa, cobertores grandes, enormes, pesados na barrela do Verão quando as temperaturas altas faziam de um trabalho fisicamente exigente um prazer de salpicos refrescantes… Ouço ainda a minha avó a dizer: “Ó nina, torces mal a roupa, filha. Tens que rodar as mãos para o outro lado!” e eu confundia-me toda a tentar imitar o gesto da minha avó, aperfeiçoado por décadas de lavar a roupa à mão para as freguesas, e num instante deixava cair o panito que a minha mãe ou avó tinham posto na minha mão, mais para eu estar sossegada com uma tarefa, do que para aportar alguma ajuda útil. E era a ver esse rio Mondego, calmo em águas de estio, que eu adormecia depois do almoço, pela hora de sesta, quando nos recolhíamos à sombra do salgueiro ou subíamos à Casa do Rio, para repousar no fresco da loja térrea.

No rio Ceira reaprendi a beleza da descoberta de um rio. Entregámo-nos a ele este verão, depois de um namoro de janela de muitos anos. O Ceira é um rio que corre num vale mais fechado que o Mondego. A nossa parte do vale, virado a este – oeste, faz com que nós, que moramos na encosta virada a sul, tenhamos a possibilidade de observar de camarote a vida que se desenrola naquela região. As colinas são altas e a nossa casa fica baixa e nós vivemos em cima do rio. E é também isso, uma localização privilegiada, a característica atração da nossa casa.

Mas o Ceira é muito mais do que isso. Nos seus quase 100 quilómetros de percurso vai reunindo água de vários afluentes que, de diversas formações montanhosas, escoam água de chuvas e neves e que em Coimbra se junta ao meu Mondego de infância. E é um rio de montanha. Frio no Verão, carregado de águas revoltas no Inverno.

O seu trajeto acidentado vai permitindo encontrar pequenos pedaços de paraíso. Rio de fadas e espíritos da floresta. Rio que depois de muitos anos a vê-lo passar poluído, colorido de veneno, doente e sem vida, regressou a alguma pureza. Hoje as águas são cristalinas. Encontramos ainda, todavia, sinais do homem: um pneu velho no leito que os meus filhos aproveitaram para usar em brincadeiras de água e de riso e que depois misteriosamente foi mudado de sítio, mal sabíamos nós que uma vara de javalis tinha também querido divertir-se; uma cadeira de plástico branco que nós retirámos do ramo do salgueiro onde estava pendurada para a usar como decoração da nossa ilhota de salvados, restos de azulejo, pedaços de tijolo, e bastantes, bastantes pedaços de saco de plástico.

Porém, nesse mesmo rio, que passa sossegado no verão, brincando por entre seixos e plantas, é também o rio onde podemos ver patos reais a nadar, garças brancas e garças reais a pescar, guarda-rios a cruzarem o ar à nossa frente numa pressa surpreendida pela nossa presença e fugidia de cores elétricas, lontras a nadar às voltas por entre as ramagens das plantas subaquáticas à procura de algum peixe incauto para o almoço, cardumes de peixes que se saracoteiam velozes em flashes prateados, famílias de javalis que se aproximam das águas refrescantes ao final do dia e que depois de bebidos, atravessam o rio e vêm comer as abóboras e outras delícias vegetais ao meu padrinho, corvos marinhos que passam lestos a fugir e os corvos pretos e grandes que colocam o vale numa algazarra quando detetam algum intruso a sobrevoar toda esta vida animada. Os guardiões do meu vale, este bando de corvos barulhentos e fanfarrões.

Temos ainda, também por causa da existência deste rio, os melros e as andorinhas, os pica-paus e cobras e arganazes, o verde da vegetação e os nevoeiros matinais.

Não trocava a minha casa por outra qualquer onde não possa ouvir o cantar dos espíritos que habitam as águas.

Quem não tem um rio que arranje!

Olga Canas

Olga Canas é mãe de três meninos. Mais alguns "filhos" a long the way, acrescentariam pessoas amigas. Mas apesar da sua apetência (ou não!) para as funções maternais, ela recusa ser encaixada apenas nessa categoria. Filha de Coimbra, aí estudou, com grande orgulho, Direito. Essa ponte para o Mundo fê-la atravessar todo um universo de descobertas e, sem nunca perder a coragem, ousou partir por esses mares tantas vezes navegados e conquistar muito mais do que lhe estava destinado.
Encontrou algum lar durante algum tempo nos Países Baixos, em Macau, em França, no Brasil e no Reino Unido. E durante um inesquecível instante nas Maldivas...
E regressou para o aconchego materno da sua Lusa Atenas. Foi com um filho, regressou com três!
E são essas as contas que importam: três!
Pelo caminho foi estudando, trabalhando e aprendendo. Voltou mais desencantada, mas mais experiente para derrotar o ceticismo. Quem a conhece sabe que as suas armas são o otimismo e o sorriso!
O abraço dela, esse é lendário!

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