África

Leve-leve em S. Tomé

Numa altura em que não estão permitidas as viagens, há algo que ainda é permitido, e eu diria até aconselhado: sonhar com as viagens que desejamos fazer e viajar no tempo com aquelas que já fizemos e por isso mais do que nunca regresso aos locais onde fui muito feliz e onde voltaria agora mesmo…

Há dias a notícia e as fotos de um tornado ao largo de Viana do Castelo, levaram-me a uma imagem semelhante em S. Tomé há uns anos. Ver um tornado a formar-se no mar bem diante de nós, o vento a ficar forte e os gigantes coqueiros a balouçar vigorosamente e de repente uma brutal tromba de água, que nos encharcou até à roupa interior em apenas 50 metros de corrida até ao bungalow, foi uma experiência memorável e que marcou a passagem pelo ilhéu das Rolas. Hoje o Facebook recorda-me que estava em S. Tomé há 6 anos atrás…belas memórias!

Ilhéu das Rolas, sim ou não?

Antes de decidir sobre a viagem não sabíamos se valeria a pena incluir o ilhéu no itinerário, mas hoje acredito que foi uma excelente opção. Como o nome indica, trata-se de uma pequena ilha, com uma igualmente pequena aldeia com uns quantos habitantes, um resort turístico, e algo que só por si merece a visita: o Marco do Equador. A vista é soberba, mas para mim o incrível mesmo é estar bem no meio do mundo, em que podemos ter um pé no hemisfério Norte e outro no Hemisfério Sul, experiência única, sobretudo para amantes de geografia. Não creio que seja local para passar mais do que 2 ou 3 dias, a não ser para alguém que deseja isolamento, silêncio e paz…Mas os dias ali podem ser bem desfrutados e destinados a explorar o ilhéu ao máximo, merecem destaque a Praia Café, bem pertinho do resort, a Praia Joana do lado oposto da ilha, onde os cocos germinam ali mesmo na areia, a comprovar o terreno fértil onde tudo cresce, imperdíveis ainda os vários miradouros que vão surgindo pelo caminho nos passeios. Os locais organizam também uns jantares na aldeia onde servem peixe, o que pode ser também uma interessante experiência intercultural. As crianças curiosas e os guias espontâneos que trepam às arvores e nos trazem deliciosas frutas exóticas de presente fazem as delícias dos passeios.

E para além do ilhéu?

Como sabem que adorei S. Tomé, vários amigos e conhecidos me perguntam o que visitar em S. Tomé? Tudo, é a única resposta que sempre me ocorre. Na verdade, não consigo pensar em um único local dos muitos visitados, que não recomende…

Para deslocação, recorremos a diferentes opções: contratamos a estadia no Ilhéu das Rolas com a viagem do aeroporto incluída, alugámos jipe com motorista para o regresso à cidade com paragens pelo caminho e depois rendemo-nos ao jipe por nossa conta, por esta ordem para nos irmos familiarizando com a ilha. E sem dúvida esta última foi a melhor opção. Não há indicações na estrada, mapas ou GPS, mas a verdade é que mesmo com a adrenalina em alta pelo desconhecido e mau estado de algumas estradas, não tivemos qualquer problema em encontrar os locais que queríamos conhecer e permitiu a liberdade de parar onde e quando quisemos e gerir tempo e locais da forma desejada. A cidade foi explorada em longas caminhadas a pé.

Quando se adora tudo, é difícil fazer destaques e elencar os favoritos, ainda assim vou deixar aqui a pena correr e registar algumas das coisas que ainda tenho bem presentes, apesar do tempo volvido.

Leve, leve

O que mais se ouve dizer por ali é “leve, leve!”, expressão que bem descreve o ritmo da ilha e seus habitantes, bem como a sua serenidade e despreocupação. Sem pressas, sem agitação, bem poderia ser o lema do momento que por agora se vive por todo o mundo e não apenas neste isolado arquipélago no meio do Atlântico. Aprender o leve leve e deixar-se levar é a melhor forma de desfrutar da ilha, atentos os inesperados eventos, os ritmos, sobretudo as esperas – a luz que falhou no restaurante, e que nos fez jantar horas depois, a estrada que ruiu e bloqueou o trânsito, os voos, barcos, transfers que nunca saem a horas…mas tudo a enriquecer a mochila do viajante e trabalhar a tolerância!

O melhor mergulho

O mergulho na praia Piscina, no sul da ilha, é obrigatório! É certo que o primeiro impacto não foi dos melhores, já que os vestígios de uma festa recente estavam ali bem à vista, deixados ao acaso, já que a recolha do lixo também não parece uma realidade muito frequente por ali, mas andando um bocadinho, logo nos deparamos com uma praia idílica e o melhor banho de toda a estadia.

Soberba é ainda a vista do ilhéu das rolas na Praia de Inhame ali perto.

No Norte visitamos a Praia do governador, Lagoa Azul, Praia Micoló e praia das Conchas, interessantes, mas em geral são bem mais bonitas as praias do sul.

Um outro banho que prometia era na cascate de S. Nicolau, a caminho da roça com o mesmo nome, mas a forte chuva que caía à passagem demoveu a vontade.

Refeição inesquecível

Em geral quando a paragem é em S. João Angolares, o repasto é feito ali mesmo na roça com o mesmo nome, do famoso Chef João Silva, mas eu tive a sorte de seguir uma recomendação e conhecer o Restaurante Mionga, bem mais barato, e com uma incrível vista e sons de crianças a brincarem na água. Não terá o charme da Roça, mas é divino e o serviço incrível.

A verdade é que comemos sempre bem, maioritariamente peixe, e banana-pão que servem com tudo e de todas as formas e feitios, mas que não deu para enjoar tal a delícia. Nas Neves, comemos no Santola, incrivelmente barato e delicioso e muito “típico”, na cidade o destaque vai para o Restaurante D. Téte que sendo o local frequentado por políticos, diplomas e empresários, é bem simples, um jardim nas traseiras de uma casa particular, mas onde tudo é delicioso e nem o mal-estar gástrico me impediu de querer provar tudo…

Gelidoxi

Ir a S. Tomé é ainda experimentar os gelados incríveis da Gelidoxi, esquecer os sabores do costume e desfrutar de uma incrível experiência sensorial com os sabores exóticos e tropicais: safú-safú, cajamanga, micondó, gengibre, tamarindo, este último ainda hoje me faz salivar.

As cores do mercado

Os mercados são também uma incrível experiência, mas é importante preparar previamente para o cheiro e insetos e para os preços para turistas serem completamente inflacionados, ainda assim bastante acessíveis para os padrões europeus…Mas sons e cores são de facto inolvidáveis e sobretudo se os vendedores decidem começar a cantar enquanto por ali passeamos. Incrível ainda como as pessoas gostam e pedem até para ser fotografadas.

A dica que não vem nos guias

Subir à torre da igreja, na vila de Trindade foi daquelas dicas preciosas de quem lá vive e que não figura nos guias, incrível panorâmica de 360º do interior, mar, ilhéu das cabras e toda a povoação, tão organizada e harmoniosa.

Roça de eleição?

Gostava de destacar as roças que me marcaram, mas foram tantas e por distintas razões, que é tarefa complicada…o incrível e comum a todas é ver o que foram e no que se tornaram, degradadas, abandonadas, uma ou outra convertidas em pousadas – como a roça Bombaim, estão em melhor condição, mas em geral, os edifícios foram invadidos e habitados e não se vêm grande manutenção ou cuidado. Algumas ainda produzem café, mas não é a regra, apesar da fertilidade daquelas terras onde tudo cresce e floresce.

Marcaram-me os locais, mas igualmente as pessoas.

Em geral, as crianças tentam sempre que os “brancos”, como nos chamam, lhes ofereçam um doce, mas optamos por levar material escolar e sobre isso recordo um episódio que me marcou. Na majestosa Roça Agostinho Neto, a receção foi feita por um grupo de crianças que veio ter connosco pedir doce. Distribuí algumas bolachas do nosso lanche, sem açúcar, pois apelam as autoridades para não contribuir para a má saúde oral das crianças e ainda uns lápis que tinham uma borracha em cima. Entretanto, uma das  meninas, que descobri depois tinha o mesmo nome que eu e por isso nunca mais me largou e foi a melhor guia por toda a roça, e que ficou emocionada com o lápis pois: “lápis até tinha – disse, mas lápis com borracha em cima nunca tive!” e por isso irradiava uma incrível felicidade que me contagiou e me tocou, já que essa não é uma realidade que eu tenha vivido… Pediu ainda uma bolacha para guardar e levar para a mãe…e eu ganhei uma deliciosa banana!

Não posso deixar de referir ainda o Ricardo, morador da antiga casa da Administração da Roça S. Nicolau, que tendo a minha idade se revelou uma enciclopédia de botânica…Falou de umas dezenas de plantas ali da roça e seus efeitos e benefícios. Lorna, bungá, bengue, casca de s. Mateus, compõem a sua farmácia, referiu que nunca nenhum dos filhos precisou recorrer ao hospital, que se algum adoece, entra na selva com a catana e logo regressa com o remédio. Apesar da sabedoria e de produzir sozinho cerca de 3 toneladas de café, nem dinheiro para uma motorizada tinha para se deslocar, atentos os valores irrisórios pagos pela produção.

Quando há tanto ainda para ver e explorar, não são tantos assim os sítios onde desejo voltar, mas S. Tomé encabeça a lista e nem sei se sei bem explicar porquê, pois não faltam lugares igualmente belos no mundo… Há algo nas gentes, na língua, afinal conhecer lugares onde a língua é o português permite uma conexão completamente diferente, já que os nossos corações falam a mesma língua, mas também algo de mágico na paisagem absolutamente selvagem e de cortar a respiração.

Haveria tanto mais para descrever e falar e é forte o desejo de regresso, não sei se será possível e muito menos quando será possível, mas move-me sonho de um dia conhecer a ilha do Príncipe e quem sabe fazer a atribulada subida ao Pico de S. Tomé, que sendo perigoso, promete vistas e uma experiência digna de uma vida. Dormir numa roça também fica na checklist de uma próxima visita.

Ah, já me esquecia do chocolate, mas tem mesmo que ser referido, já que ali se produz mesmo o melhor chocolate do mundo, na Claudio Corallo, e se lá forem não se esqueçam de me trazer chocolate com laranja e um saquinho de grãos de café mergulhados no chocolate…de babar e que descobri recentemente que consigo encontrar numa lojinha de Viana do Castelo!  Privilégios!

Vânia Magalhães

Nasci em Guimarães, mas sou do mundo, as raízes não são muito profundas, vou onde os meus ramos me levarem.
Licenciada em direito, apaixonada pelos direitos humanos, cedo percebi que estes se praticam no dia-a-dia, no amor ao próximo, em atividades de voluntariado, a passar as mensagens certas com o nosso exemplo e atitude, mais do que em manifestações jurídicas.
Nos últimos anos vivi uma incrível revolução e descobertas interiores, com percurso na filosofia macrobiótica, através de formação no Instituto Macrobiótico de Portugal, coaching/mentoring e constelações sistémicas, meditação, saberes que agora tento combinar e passar como inspirações.
Sou apaixonada por viagens, gosto de escrever, gosto de cozinhar e preconizo uma vida simples dentro da complexidade que me habita.
Cuido do meu corpo, porque também ele me guia.

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