Ásia

Cheirou-me a Amed!

Agora mesmo a colocar protetor solar ao meu filho, tive uma daquelas incríveis memórias olfativas, e por momentos regressei às últimas férias, em Bali, e a verdade é que o aroma me transportou precisamente ao local onde fui mais feliz na ilha dos Deuses: Amed.

Uma qualquer pesquisa na internet sobre o que visitar em Bali, vai dar-nos milhares de resultados e potenciais roteiros e todos temos amigos que nos vão certamente dar as suas melhores sugestões, e também eu fiz essa exploração, porém, não vi grandes referências a essa pérola perdida. Li sobre Amed apenas em publicações feitas por apaixonados de mergulho, afinal é essa a principal razão que leva visitantes àquele lugar remoto, e nem sei muito bem como fomos lá parar, o certo é que fomos e ainda bem!

Nunca fiz mergulho e na verdade morro de medo, mar sim, mas à tona! Fiz snorkelling em lugares onde valeu mesmo a pena, como o mar vermelho no Egito, mas nem isso é prática corrente e, portanto, não foi isso que nos levou ali. Também não foram as paradisíacas praias, pois apesar das águas mornas e cristalinas, as praias são de seixos e areia preta e nem de longe nem de perto de uma beleza estonteante; creio que foi mesmo a energia do local e suas gentes que sob o imponente vulcão Agung, nos conquistaram.

O nosso primeiro impacto com a afamada ilha, em Ubud, foi desolador, não quero soar ingrata, mas foi mesmo uma receção de poluição, lixo, confusão, turismo de massas e pouca essência e espiritualidade! Atravessar o mundo para nos depararmos com o caos, foi avassalador e foi na calma de Amed que pudemos recuperar a paz e conseguir desfrutar das férias.

Amed é uma vila piscatória de ritmo lento, e por isso abundam pela praia as pequenas embarcações tradicionais, que servem também para transportar os turistas aos navios ali afundados durante a II guerra Mundial, e que –  dizem – fazem o deleite de quem se aventura.  Crianças a brincar e a sorrir fazem também parte da paisagem e são grandes anfitriões daquelas paragens.

Um modesto hotel mesmo em cima da praia, foi o nosso refúgio, uma motorizada para 3, o nosso meio de transporte, deliciosas iguarias preparadas com muito amor no Warung Ole, o nosso alimento e sol, sal, mar e amor, os restantes ingredientes para uns dias incríveis. Experimentamos outros restaurantes, mas de facto aquele local tinha mesmo algo especial, havia todo um ritual de preparação da comida, decoração do prato, acompanhados pelo mais simpático serviço da ilha. Mas merece ainda menção um outro local, o Blue Earth, um local construído com princípios ecológicos, que serve comida orgânica e múltiplas opções veganas, e apresenta uma deslumbrante vista para  a baía de Jemeluk e que ao por-do-sol é o local perfeito para descobrir a silhueta do vulcão Agung.  

Num dos dias da estadia, tivemos ainda o privilégio de assistir aos rituais na praia das cerimónias de cremações em massa, já que por razões económicas os mortos são temporariamente enterrados e a cada 3 ou 5 anos celebram-se cremações de todos eles, num ritual de transição para outra vida.  

Merece ainda destaque o próprio trajeto feito até Amed já que aproveitamos a deslocação para ver as paisagens de deslumbrantes campos de arroz, palácios e templos do caminho, com destaque para o antigo palácio real Tirta Ganga, ou palácio da água, rodeado de incríveis jardins, lagos e estátuas, o desafio ali é mesmo tirar uma foto sem a presença de outros turistas! Pura Lempuyang, já perto de Amed, é um templo majestoso, ou melhor um conjunto de templos montanha acima, que sendo de rara beleza e soberbas vistas, a verdade é não se pode desfrutar em pleno das famosas portas para o céu, já que encontramos pela frente uma interminável fila de turistas e são umas valentes horas para poder desfrutar da vista e tirar a desejada foto. Um dos nossos templos de eleição foi, no entanto, o Pura Goa Lawah, ou caverna dos morcegos, situado em frente à praia com o mesmo nome e que data do século XI  e que tivemos o privilégio de visitar sem a presença de outra pessoas, sentir porque é um dos locais mais sagrados de Bali e conhecer os milhares de morcegos que habitam a caverna. Inesquecível, até para uma criança de 3 anos que continua a falar dos morcegos.

Passámos 12 dias em Bali, estivemos em Ubud, na costa leste, onde fica Amed, também na península no sul da ilha onde estão os spots de surf e as praias mais bonitas, em Uluwatu,  e ainda em Sanur, que foi recomendado como adequado a crianças pequenas, mas foi mesmo em Amed que encontramos costumes e cultura mais genuínos, espiritualidade, paz, e a essência de que tínhamos ouvido falar, mas talvez de viajantes que se aventuraram há anos atrás, antes deste boom turístico recente que no nosso entender desvirtuou um pouco a ilha.

Talvez agora que as viagens estão suspensas, o turismo possa ser reequacionado e no futuro se passe a viajar de forma mais consciente e ecológica e lugares como a ilha de Bali possam recuperar o seu encanto de outrora. É, pelo menos, o nosso desejo! 

Vânia Magalhães

Nasci em Guimarães, mas sou do mundo, as raízes não são muito profundas, vou onde os meus ramos me levarem.
Licenciada em direito, apaixonada pelos direitos humanos, cedo percebi que estes se praticam no dia-a-dia, no amor ao próximo, em atividades de voluntariado, a passar as mensagens certas com o nosso exemplo e atitude, mais do que em manifestações jurídicas.
Nos últimos anos vivi uma incrível revolução e descobertas interiores, com percurso na filosofia macrobiótica, através de formação no Instituto Macrobiótico de Portugal, coaching/mentoring e constelações sistémicas, meditação, saberes que agora tento combinar e passar como inspirações.
Sou apaixonada por viagens, gosto de escrever, gosto de cozinhar e preconizo uma vida simples dentro da complexidade que me habita.
Cuido do meu corpo, porque também ele me guia.

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